Diana Vreeland by Renata Matos

Postado na categoria Nalva Faz Minha Cabeça

Park Avenue, Nova York. Em um apartamento de paredes vermelhas cor de sangue, uma elegante senhora de nariz adunco e cabelos negros está almoçando. O menu é o mesmo de sempre: sanduíche de pasta amendoim...

e uma dose de uísque. Excêntrica, para dizer o mínimo. Mas não existe mínimo quando se trata de Diana Vreeland. Ela aprendeu a cavalgar com Buffalo Bill, dançou com Josephine Baker, foi ao cinema com Luchino Visconti, viu Cole Porter compor, foi amiga de Coco Chanel, Andy Warhol, Rudolf Nureyev, Lauren Bacall e Jackie O, descobriu e ajudou gente como Twiggy, Anjelica Huston, Barbra Streisand e Manolo Blahnik (sim, o sapateiro da Carrie Bradshaw), e conviveu com quase todo mundo que teve alguma relevância na cultura do século XX. 

Mas quem era, e o que fazia esta mulher ? 

Mrs Vreeland foi uma daquelas mulheres fortes e inesquecíveis. Ela inventou um ofício que hoje é almejado por muitos - a profissão de editora de moda. Seu reinado teve passagens pela Harper’s Bazaar, Vogue e até pelo Metropolitan Museum of Art de Nova York. E para contar essa história precisamos voltar à França do início do século passado. 

Filha de pai inglês e mãe norte-americana, Diana nasceu em 1906, em Paris. A família fazia parte da típica burguesia francesa da época. Ela e a irmã Alexandra tiveram uma infância de ouro, cercadas de luxo, conforto e gente interessante, que lotava a casa da família em noites de sarau. Apesar disso, não foi uma época fácil. Diana era uma criança feia, e Alexandra era belíssima. Na adolescência, quando a família já havia se mudado para Nova York, a disparidade só aumentou. Em sua autobiografia, ela conta que apesar de se 

magoar com as comparações, principalmente aquelas feitas pela própria mãe, nunca deixou de amar e se orgulhar da irmã. Sempre havia alguém dizendo “que criança linda!”, e Diana completava orgulhosa: “e tem olhos cor de violeta!”. O problema era mesmo a mãe e seus cruéis comentários: “é uma pena que você tenha uma irmã assim tão bela, enquanto você é tão feia e tem uma inveja terrível dela. É claro que este é o motivo pelo qual você é assim tão difícil”, disse certa vez, tentando achar uma explicação para o temperamento forte de Diana. É provável que a ausência de beleza é que a tenha tornado tão forte e elegante. Já que não foi agraciada pela natureza, Diana buscou ser atraente por outras características. Era uma mulher refinada, inteligente, e estava sempre muito bem arrumada. Amava ler, e seu primeiro ideal de beleza e elegância foi a Natasha de Guerra e Paz, de Tolstoi - seu autor predileto. Usava os cabelos pretos sempre penteados para trás, boca e unhas vermelhas, da mesma cor da parede de seu escritório e da sala de sua casa. Personalidade marcante. Foi assim que conseguiu casar com “o homem mais bonito que já havia visto”, o banqueiro Reed Vreeland. 

Foi em uma das festas que frequentava com o marido, em 1937, que Carmel Snow, dona da Harpers Bazaar, lhe ofereceu um trabalho. Snow achou que aquela elegante dama poderia assinar uma coluna na revista. A coluna se chamava Why Dont You... (Porque Você Não...), e se tornou um grande sucesso. Diana fazia sugestões ora bem humoradas, ora irônicas, e adorava sugerir coisas absurdas como “Porque Você Não lava os cabelos loiros dos seus filhos com o champagne que sobrou da noite anterior?”ou “Porque você não usa 3 diamantes presos no cabelo como a Duquesa de Windsor?”. Da coluna para os editoriais de moda foi um pulo. Em 1939 ela já coordenava equipes de modelos, fotógrafos, maquiadores e produtores, criando ensaios fotográficos que entrariam para a história. Como chefe, dizem que ela não era fácil. São famosas as histórias sobre o gênio difícil de Mrs Vreeland. Uma delas conta que uma assistente foi demitida porque usava saltos cujo barulho incomodava e tirava a concentração da chefe. Outra, que Diana fazia as assistentes usarem bijouterias enormes, com guizos, para que ela soubesse quando estavam por perto. Qualquer semelhança com Anna Wintour – editora da Vogue que deu origem à personagem de Meryl Streep em O Diabo Veste Prada - não é mera coincidência. Anna é uma das maiores admiradoras de Diana, e deve ter se inspirado no ídolo em tudo – temperamento incluso. 

Diana Vreeland trabalhou por 25 anos na Bazaar. Até que em 1962, recebeu um convite para ser editora da Vogue. Já consolidada como grande profissional e ícone fashion, recebia um salário altíssimo no novo emprego, e tinha um crédito ilimitado para comprar tudo o que quisesse. Nessa fase ela tinha equipes fotografando editoriais em todo o mundo. Um elefante indiano, ou um urso polar poderiam ser usados como simples elementos cênicos, em editoriais suntuosos. Diana pensava grande, e sua imaginação não tinha limites. Cecil Beaton, Irving Penn, Helmut Newton e todos os grandes fotógrafos adoravam trabalhar com ela. 

O reinado de Diana Vreeland como editora de moda durou até 1971, quando foi demitida durante uma reformulação da Vogue. O motivo? Os editoriais de Diana, com suas equipes nos lugares mais exóticos, estouravam o orçamento da revista todos os meses. Apesar de arrasada com a demissão, deu a volta por cima rapidamente. A amizade com Jackie O. lhe rendeu um convite para ser consultora especial do Instituto de Vestuário do Metropolitan Museum de Nova York. Ocupou o cargo com maestria por mais de dez anos, realizando exposições inesquecíveis. 

Diana morreu em 1989. Uma morte nada glamourosa – se é que existe um jeito de morrer com glamour. Em seu apartamento, sozinha, pobre (nunca juntou dinheiro) e cega. Já no fim da vida, com mais de 80 anos, quase não saía da cama. É famosa uma frase atribuída a ela, sobre o fato de estar cega: “meus olhos cansaram de ver coisas bonitas”. Se ela realmente disse isso, nunca saberemos. Mas tudo que os nossos olhos vêem de belo hoje em dia nas revistas de moda, tem a influência de Diana Vreeland. 

(Matéria originalmente publicada na Revista Salto Agulha

Sobre as fotos: 
Para ilustrar o texto, convidamos a arquiteta Renata Matos para viver Diana Vreeland. Nossa referência era uma Diana no auge de sua carreira na Harper’s Bazaar, entre os anos 40 e 50. O grande desafio era a beleza clássica de Renata. Como transformar traços tão delicados, em um rosto anguloso como o da nossa personagem? A tarefa - difícil, mas não impossível - foi cumprida com louvor por Nalva Melo. 

Ficha Técnica: 
Styling: Gladis Vivane
Maquiagem e cabelo: Nalva Melo
Fotografia: Drika Silveira

Roupas: Bain Douche, Ricard8 San Martini e acervo pessoal 
Sapatos: Scarparo e Myosotis Bijouterias: Bain Douche e Myosotis